sábado, janeiro 03, 2004

Terra de Contradições

Moçambique gera em nós uma ambivalência de sentimentos.

É como ter na mão uma medalha de ouro, com um lado reluzente e bem gravado e com um verso oxidado e bolorento.
O país é imenso, bonito, rico em gentes e culturas, abençoado por milhares de Km de costa assombrosa, de frente para o Índico.
País de dimensões desconhecidas para nós, europeus, que vivemos em Continente sobrepovoado, que dificilmente compreendemos a imensidão da terra africana, que muitas vezes alberga somente o silêncio do abandono.



Mas comecemos pelo início - Lourenço Marques.
Lourenço Marques, ou antes Maputo, é uma cidade assombrosa. Com um plano e traçado que datam da década de 1920, tem uma grandiosidade e dimensão tão típica dos países anglo-saxónicos e tão desconhecida dos portugueses. Por o plano nunca ter sido alterado ou "atropelado", o resultado é uma cidade com grandes avenidas rasgadas, com uma simetria de quadrícula que permite uma circulação fluente.
É uma cidade em que a arquitectura dos anos 60 é predominante. Mas que parou no tempo. Em 7 anos notei algumas, poucas, recuperações de edifícios, principalmente devido à recente cimeira dos Países Africanos. Como é o caso da lindíssima estação de caminhos de ferros de Maputo, de traça colonial e resplandescente na sua nova pintura verde água.
Na Baixa surgiram alguns novos edifícios modernos de escritórios, sobretudo de investidores sul africanos e chineses. Alguns hoteis foram construídos e aqui acabam as alterações notadas em 7 anos de ausência!
A cidade está degradada a necessitar de uma grande remodelação. Mas continua bonita e harmoniosa.

Quanto às suas gentes, já não encontrei os bandos de meninos de rua que deambulavam pela cidade a pedir esmolas, filhos da guerra, sem pais ou familiares. Onde andam esses meninos, perguntei. Cresceram e fizeram-se homens. Uns conseguiram emprego, outros andam a roubar.

E o povo continua caloroso e humano? Quente e de sorriso afável?
Muitos sim, a grande maioria, felizmente.
Mas tantos outros aprenderam com os exemplos de cima a serem corruptos, a não terem condescendência, de coração fechado. Perceberam que em país de grande pobreza, há oportunidade de ganhar dinheiro com a miséria alheia. Não é nada de novo, já que os altos dirigentes políticos assim o fazem desde a independência.

A corrupção está instalada em toda a engrenagem do Estado e concentra-se em grande escala nas cidades.
Moçambique continua na cauda dos países mais pobres do mundo e 80% do seu Orçamento de Estado provem da ajuda externa. Habituaram-se a viver de mão estendida e as grandes somas de dinheiro doado são demasiado tentadoras para não serem tocadas, beliscadas, eu diria mesmo, pilhadas, por quem as gere.
Fiquei com a certeza absoluta que não voltarei a doar dinheiro para campanhas para África. Não estou a fazer mais que a transferir dinheiro para as contas na Suiça dos dirigentes que as promovem.
Foram tantos os exemplos dados por aqueles com quem convivi e que por lá moram há bastante tempo, que não me restaram dúvidas que a ajuda ou é feita directamente para quem necessita, ou perde-se nos meandros da burocracia.

É este o lado negro, desolador de Moçambique. Felizmente existe o reverso.

(continua)

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